Os Melhores Filmes de 2019

2019 foi um ano marcante para o cinema mundial por diversos eventos dissonantes durante todos seus dias. Do lado gringo o fan service se destaca ao impulsionar o recorde de maior bilheteria pelo último capítulo de Vingadores, enquanto as demais franquias desanimam depois disso, incluindo o desencanto nas estrelas da saga Star Wars. A maior produtora de entretenimento do mundo investe no “mais do mesmo” todos os meses, mas os longas mais interessantes são lançados diretamente em plataformas streaming. São essas as condições favoráveis para ouvirmos Scorsese e Coppola reclamarem da qualidade do saturado mercado heroico dominante de até 90% das salas em qualquer parte do planeta (talvez não na China), lhe restando a Netflix como alternativa para O Irlandês se visto numa proporção justa. Polêmicas à parte, não podemos ignorar que ambos são responsáveis pelos “hypes” do momento, pois o Coringa de hoje foi Travis Bickle e Walter E. Kurtz de um breve passado.

Na terra tupiniquim o desmonte da cultura cresce a cada dia sem investimento do Estado, a ponto da Agência Nacional de Cinema perder seu propósito. Mesmo com famosos festivais brasileiros quase desaparecendo do calendário, os internacionais dão o alento de cabíveis premiações aos nossos filmes. Enquanto desinformados insistem em dizer que por muito tempo não fazemos “um bom filme,” cada vez mais eu me torno um “bacurete” convicto. É por essas e outras que, apesar de não ter conseguido assistir todos os lançamentos que gostaria, mais da metade foram brasileiros, de todos os tipos de gênero, tendo cada um deles de exemplo na listagem indicada.

Os critérios para a seleção dos títulos continuam os mesmos: películas estreantes no Brasil de janeiro a dezembro, sejam nas tradicionais salas de cinema ou plataformas streaming. Comparando com edições anteriores, houve uma redução de categorias, cujas divisões entre blockbusters e alternativos foram deixadas pontualmente de lado para refletir cinema de modo diferente, ao menos em 2019.

Troféu Versão Brasileira

Apesar dos grandes pesares, a cultura cinematográfica nacional resistiu apresentando uma diversidade de gêneros em construção desde de sua retomada. Grandes profissionais da área fizeram o impossível nos estimados documentários, melodramas, fantasia, ficção científica, animação, infantil, e até chegar no horror americano com a nossa cara, para entregar muito mais que “um bom filme” e serem lembrados num amanhã incerto. Como já sabem, são trabalhos especiais por trazer a familiaridade do cotidiano local, pois ninguém melhor que nós para sentirmos o mesmo medo combatido por Tito durante 73 minutos de animação, ou voltar a ser adolescente sem rumo em Dias Vazios, olhar nos olhos da Eurídice Gusmão e reconhecer a possível dor de uma geração precedente e até mesmo constatar abatido nos créditos finais de Democracia em Vertigem ao som de Roda Viva.

  • A Vida Invisível de Karim Aïnouz - Dramão tropical no Rio que não conheci
  • Divino Amor de Gabriel Mascaro - Distopia futurística pra pedir a Deus que não aconteça
  • Democracia em Vertigem de Petra Costa - Documentário pra gringo entender o que muitos aqui ignoram
  • Dias Vazios de Robney Bruno Almeida - Drama de cortar os pulsos, mas uma pérola no centro do país
  • Greta de Armando Praça - Drama que traz Nanini no seu auge, sendo diva dos anos 30
  • Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar de Marcelo Gomes - Documentário de descoberta do Brasil que não se fala
  • Inferninho de Pedro Diogenes e Guto Parente - Fantasia “My Own Private Hell”
  • Sócrates de Alexandre Moratto - Drama sobre a sobrevivência dos excluídos
  • Tito e os Pássaros e Gabriel Bitar, André Catoto e Gustavo Steinberg - Animação das trevas expressionistas à procura de cores intensas
  • Eleições de Alice Riff - Documentário pra lembrar da época do ginásio, e de política social
  • Morto não Fala de Dennison Ramalho - O terror da zona leste
  • Turma da Mônica: Laços de Daniel Rezende - Infantil de férias para toda a família e não é da Disney!

Troféu Pílula Vermelha

Tendo uma única relação já quase pronta, pensei como poderia destacar alguns filmes favoritos que tivessem algo em comum. Assim, resolvi dividi-la em duas partes, sendo a primeira delas contendo aqueles que transcendem a arte para sinalizar algo de errado no mundo. Mas é claro que isso não é uma exclusividade do final da década, em razão da incumbência constante de vários diretores renomados durante décadas. Porém, o mal-estar causado principalmente pela depreciação humana está presente nesses títulos construídos quase no mesmo período em localidades distintas do mapa mundi. Além de triunfar diversas premiações, são narrativas que valem a pena se desconectar da Matrix e causar uma boa reflexão.

A maioria dos diretores contidos nesse troféu vêm sedimentando a carreira ao trazer entretenimento junto às emergentes críticas sociais. Assim foi Kleber com O Som Ao Redor (2012) e Aquarius (2016), Bong Joon Ho desde O Hospedeiro (2006), Expresso do Amanhã (2013) e agora é o dono da melhor produção do ano, internacional ou não, Koreeda de Ninguém Pode Saber (2004) persiste em mostrar o lado do Japão desconhecido pelo ocidente, quem diria Todd Phillips depois de uma série de comédias quase iguais subverteu o saturada jornada do herói ao tornar Coringa no segundo melhor filme de Scorcese do ano! uma criatura “compreensível”. E não menos importante, a inesperada surpresa da diretora libanesa Nadine Labaki, do belíssimo Caramelo (2007), por dedicar à tarefa de desidratar qualquer espectador mais sensível no cruel Cafarnaum.

  • Bacurau de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho - Brasil
  • Parasita | Gisaengchung 🏆 de Bong Joon Ho - Coreia do Sul
  • Nós | US de Jordan Peele - USA
  • Cafarnaum | Capharnaüm de Nadine Labaki - Líbano
  • Coringa | Joker de Todd Phillips - USA
  • Assunto de Família | Manbiki kazoku de Hirokazu Koreeda - Japão

Troféu Pílula Azul

Agora aqui sim, os longas causadores de admiração da sétima arte por sua diversidade em contagiar com outros tipos de emoções. Tivemos a vez de acompanhar as memórias de Pedro Almodóvar na disputa das melhores cenas contra Noah Baumbach e seu casal de protagonistas merecedores de toda atenção em História de Casamento. A nostalgia também foi instrumento de um Tarantino mais contemplativo, ao passo que nosso Fernando Meirelles dirige um microcosmo da polaridade mundial em diálogos inimagináveis entre dois papas. Pra não dizerem por aí que não falei de Marvel, da avalanche de personagens coloridos os meus favoritos são as aranhas de outra dimensão. Não somente pela diversão, mas também pelo sinal de evolução da animação se compararmos aos dos estúdios prevalecentes e tradicionais. Menção honrosa para um estreante de 2018, todavia foi um belo contraste na minha terça-feira de carnaval: Guerra Fria do polonês Pawel Pawlikowski.

  • Dor e glória | Dolor y Gloria de Pedro Almodóvar
  • História de Um Casamento | Marriage Story 👻 de Noah Baumbach
  • Dois papas | The Two Popes de Fernando Meirelles
  • A Favorita | The Favourite de Yorgos Lanthimos
  • Homem-Aranha: No Aranhaverso | Spider-Man: Into the Spider-Verse de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman
  • Midsommar: O Mal Não Espera a Noite | Midsommar de Ari Aster
  • Era Uma Vez em...Hollywood | Once Upon a Time ...in Hollywood de Quentin Tarantino
  • No Portal da Eternidade | At Eternity's Gate de Julian Schnabel

Troféu Revival em Tela Grande

Não poderia me esquecer da prezada lista de revivals, proveniente da procura por estabelecimentos na cidade onde dão o privilégio de exibir clássicos. É um ritual em homenagem ao legado do cinema e sobretudo a oportunidade de testemunhar realizações, seja remasterizadas ou em saudosos 35mm, que não envelhecem com o tempo. O maior destaque delas é a principal referência à luta de sobrevivência do cinema brasileiro. Somente Eduardo Coutinho teve a paciência de escutar a história de uma nação num simples condomínio e resultar num trabalho de tanta riqueza sobre o que somos. E enquanto o novo de Wong Kar-Wai não chega, nada melhor do que completar a trilogia do eterno feminino acompanhado do escuro e tela grande.

  • Edifício Master (2002) de Eduardo Coutinho
  • Dias Selvagens | Ah fei zing zyun (1990) de Wong Kar-Wai
  • Bagdad Café | Out of Rosenheim (1987) de Percy Adlon
  • Amor à Flor da Pele | Faa yeung nin wa (2000) de Wong Kar-Wai

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