Os melhores filmes de 2018

De todas as reflexões que costumamos fazer nos últimos dias do ano, com certeza a mais divertida pra mim é a seleção dos melhores filmes de 2018. Seguindo a tradição das edições anteriores, me coloco a avaliar os lançamentos no circuito cinematográfico, sem desconsiderar as plataformas de streaming, dos quais pude ter o prazer de assistir neste período. Para ser um pouquinho mais democrático, as premiações são divididas em seis categorias inusitadas onde elejo até cinco longas-metragem em cada uma delas. E como a arte é oportuna em aguçar a subjetividade, vale lembrar que o critério de avaliação é baseado em minhas experiências pessoais em conjunto com a análise dos recursos técnicos para evidenciar o que há de melhor nas obras selecionadas.

Mas checar e comparar uma dúzia de filmes sem discerni-los já seria o suficiente para concluir meu raciocínio? É bem provável que os trabalhos aqui mencionados tenham algo a dizer a você também. É fácil reconhecer neles retratos do contexto atual do mundo com seus contrastes humanos a serem questionados e principalmente admirados, ainda que sejam sobre galáxias distantes ou de criaturas com superpoderes.

Ah...corro o risco de não mencionar alguns títulos porque simplesmente não tive oportunidade de vê-los, mas aí é só você escrever quais faltaram nos comentários deste artigo, tudo bem? Então vamos lá!

Troféu Versão Brasileira

  • Café com Canela de Glenda Nicácio e Ary Rosa - Bahia
  • Benzinho de Gustavo Pizzi - Rio de Janeiro
  • Arábia de João Dumans e Affonso Uchoa - Minas Gerais
  • As Boas Maneiras de Marco Dutra e Juliana Rojas - São Paulo
  • Animal Cordial de Gabriela Amaral - São Paulo

A categoria mais importante vem valorizar cada vez mais nossa brasilidade na grande tela. A satisfação em conferir um trabalho nacional enfim terminando, levando em conta todas as dificuldades de produção, a árdua disputa pelo espaço na distribuição e ainda a dificuldade em superar preconceito do público, que acaba por ignorar histórias tão próximas de seu cotidiano apresentadas pela sétima arte. São exemplos que vão desde a luta social com métodos bem peculiares dentro de um restaurante de São Paulo (Animal Cordial), ou até mesmo a formação de uma criatura abominável do lado mais humilde da cidade (As Boas Maneiras). Ou quem sabe a população carente representada na vida de um homem à procura por dignidade pelas cidades históricas de Minas Gerais (Arábia), ou talvez na mãe de quatro filhos, com dificuldades econômicas no interior do Rio de Janeiro, mas disposta a fazer tudo para não ver sua casa literalmente desmoronar (Benzinho). E o melhor de tudo isso está num projeto de faculdade, gravado no recôncavo baiano, como a grande prova de que se pode fazer uma celebração à vida com muito pouco (Café com Canela).

Menções honrosas aos que ainda não consegui assistir, mas 2019 está aí para isso: Tinta Bruta, Rasga Coração e Beijo no Asfalto.

Troféu Legendados para América ou World Movies

  • 120 Batimentos por Minuto - 120 bpm de Robin Campillo - França
  • Roma - Roma de Alfonso Cuarón - México
  • Em chamas - Beoning de Chang-dong Lee - Coreia do Sul
  • Em pedaços - Aus dem Nichts de Fatih Akin - Alemanha

Expandindo a visão para além das fronteiras nacionais, as produções de “língua estrangeira” são as mais esperadas, pois sempre abordam algo diferente do que já é consumido pelo padrão comercial . Talvez a partir destes feitos possamos ter a percepção de como está o movimento do mundo, e cada tema tem uma certa familiaridade com o que lidamos aqui e agora. Fatih Akin, do divertido Soul Kitchen (2009), dirige algo mais sério ao contar sobre uma família alemã fatalmente desfeita, vítima de preconceito (Em pedaços). O sul-coreano Chang-dong Lee, depois de Poesia (2010), faz uma trama com narrativa incrível, da qual aborda as divergências sociais e a dificuldade da juventude fazer parte de seu país (Em chamas). Alfonso Cuarón lança sua melhor obra prima, um novo clássico que retrata o panorama político do México nos anos 70 enquanto conta a história de sua própria empregada doméstica (Roma). Por fim, Robin Campillo, depois de escrever sobre as escolas periféricas na França em Entre os Muros da Escola (2008), focou sua atenção à um grupo de protestantes soropositivos nos anos 90, transitando entre a captação realista de um debate severo e as intervenções poéticas dos relacionamentos (120 bpm). Com certeza esses dois últimos são os mais importantes de todas as premiações pessoais, sabendo que o último foi o primeiro longa visto em 2018, do qual não poderia esperar algo melhor, até o outro ser lançado no final do ano pela Netflix.

Troféu Gloriosos Alternativos

  • Três Anúncios Para Um Crime - Three Billboards Outside Ebbing, Missouri de Martin McDonagh
  • Projeto Flórida - The Florida Project de Sean Baker
  • Infiltrado na Klã - BlacKkKlansman de Spike Lee
  • Me chame pelo seu nome - Call Me by Your Name de Luca Guadagnino

Com o mesmo senso crítico que a categoria anterior, a coluna do meio hollywoodiana se acentua na corrida por prêmios, e sucessivamente a notoriedade do público. Projeto Flórida de Sean Baker, conhecido por filmar Tangerina (2015) com um Iphone, é o mais alternativo deles, apesar da presença ilustre de Willem Dafoe no elenco. É um diretor promissor por retratar os periféricos americanos, principalmente em pontos inimagináveis para quem vê de fora.

Três citados já foram nomeados ao Oscar como melhor filme, sendo que Três Anúncios Para um Crime era meu favorito para disputa, enquanto a adaptação Me Chame Pelo Seu Nome sempre terá uma das cenas mais memoráveis de todos os tempos. Logo, e por enquanto, meu favorito para prêmio da academia em 2019 é o retorno de Spike Lee em Infiltrado na Klã.

Menções honrosas para a dupla feminina Lady Bird de Greta Gerwig e Você Nunca Esteve Realmente Aqui de Lynne Ramsay.

Troféu os Fantásticos

  • Hereditário - Hereditary de Ari Aster - Drama, Horror, Mistério
  • A Forma da Água - The Shape of Water de Guillermo del Toro - Aventura, Drama, Fantasia
  • Um lugar silencioso - A Quiet Place de John Krasinski - Drama, Horror, Mistério
  • Aniquilação - Annihilation de Alex Garland - Aventura, Drama, Horror

Todo ano sempre tem poucos filmes de horror que se sobressaiam em relação às demais concepções do gênero. Não porque são tecnicamente melhores ou mais apelativos, mas talvez mais criativos a ponto de chamar a atenção de um público maior. Desta vez não foi diferente ao conferir o esperado Hereditário de Ari Aster, responsável por me perturbar durante e depois da reprodução, como nenhum outro fez há anos. Também foi destaque de Um Lugar Silencioso do ator e diretor John Krasinski, que se aventurou em dar sustos com um roteiro simples apoiado em recursos sonoros. Sem deixar de lado a experiência visual surrealista de Alex Garland em Aniquilação, e claro, o ganhador do Oscar e grande feito de Guillermo del Toro, a fábula A Forma da Água.

Troféu Pesos Pesados, Pipoca e Coca-Cola

  • Pantera Negra - Black Panther de Ryan Coogler - Marvel Studios
  • Jogador Nº 1 - Ready Player One de Steven Spielberg - Warner Bros. Pictures
  • Vingadores: Guerra Infinita - Avengers: Infinity War de Anthony e Joe Russo - Marvel Studios
  • Bohemian Rhapsody - Bohemian Rhapsody de Bryan Singer - 20th Century Fox

Os “filmes eventos” (esperados arrasa-quarteirões) continuam a se propagar com a fórmula “mais do mesmo” só pra acrescentar mais um algarismo em suas franquias e muitos outros no faturamento. Apesar da relação conflitante apresentada, qualquer dúvida é só olhar o Top Box office do IMDB, tivemos algumas diversões que valeram a pena em contribuir para a causa. A Marvel emplacou dois, entre tantos outros, quando exemplifica o nazismo num ambicioso conjunto de personagens e desenvolve a representatividade negra no mesmo universo. Enquanto isso, Spielberg volta ao melhor de si, com o pé lá nos anos 80, ao fazer um excelente produto para os geeks, com direito a homenagear um clássico do terror! O mesmo ocorre na volta de Brian Singer, quem deixou sua especialidade em dar vida aos mortais divinizados de colãns coloridos, para reviver Freddy Mercury na pele de Elliot! ou melhor Rami Malek. Apesar das mais diversas ressalvas ao enredo, ainda é recompensador vê-lo cantar novamente.

Troféu Revival em Tela Grande

  • Morte em Veneza - Morte a Venezia de Luchino Visconti - 1971
  • Noites de Cabíria - Le notti di Cabiria de Federico Fellini - 1957
  • Cidadão Kane - Citizen Kane de Orson Welles -1941
  • Stromboli - Stromboli, terra di Dio de Roberto Rossellini - 1950
  • O estrangeiro - Lo straniero de Luchino Visconti - 1967

Mas o que seria do cinema atual sem seu legado? Seria justo mais de um século negligenciado só porque não está nas galerias virtuais ou nos streamings dos celulares e tablets? Afinal, são deles a origem de todas as nossas melhores referências que cultuamos hoje.

Pois bem, vamos fazer uma revisão dos mencionados nas outras categorias...O que seria mais legal em Jogador Nº 1 se não fosse Kubrick? Ou de Blackkkansman sem a imagem de Shaft (1971)? E do premiado monstro de del Toro caso não se inspirasse em O Monstro da Lagoa Negra (1954)? Quem sabe O Exorcista (1974), O Homem de Palha (1973) e Suspiria (1977) para Hereditário? E os bairros pobres da cidade do México em preto e branco como nas lembranças de Fellini? Se até final de novela das oito é capaz de beber da mesma fonte, então por que nós não iríamos valorizá-los ?

A emoção de presenciar um clássico numa grande sala escura é multiplicada, e é muito mais do que usar um óculos 3D, pois os clássicos tem a nostalgia que só aqueles que superam o tempo podem oferecer. É um ótimo exercício apreciar o passado para entender o que vemos (e vivemos) no presente. Assim, quem sabe um dia, no futuro, eu volte a rever todos os mencionados neste texto para perceber tal sentimento? Será um imenso prazer, sem dúvida.